A gente não fica assim um muito pertinho do outro, só de vez em quando e eu fico feliz quando você me chama pra brincar. Teve um dia que a gente dividiu o lanche e foi muito legal, você comeu o seu e o restinho do meu que eu não dei conta de comer mas foi dessa vez só, e na minha lancheira sempre tem lanche gostoso, eu até já levei pra você e você disse que meu lanche era o lanche mais gostoso. Sempre tem um monte de meninos com você e umas meninas também, eu não gosto mas eu faço de conta que nem ligo e só conto pras minhas amigas que não gosto porque pras amigas a gente pode contar tudo, né? Foi muito legal aquele dia que que a gente fez uma festa do pijama. Tava muito frio e a gente ficou acordado até bem tardão e a gente falou um monte de coisa e cantou e brincou bastante. Aí eu queria que sempre tivesse festa do pijama ou alguma festa diferente pra gente ficar brincando até muito tarde de novo, mas não tem todo dia porque não dá. Eu fiz uma cartinha com um desenho pra você que eu ia esconder na sua mochila mas eu fiquei com vergonha e guardei na minha mesmo. Já te chamei um montão de vezes pra desenhar comigo mas você sempre tem outra coisa que você quer fazer, ainda bem que eu nem ligo de ficar desenhando sozinha, eu gosto muito de desenhar sozinha. Você nem sabe, mas a tia me contou que a gente vai ser noivinho na festa junina e todo mundo vai seguir a gente na hora de dançar quadrilha. Eu contei pra ela que a gente é namorado mas eu disse que você não sabe que a gente é namorado. Você não sabe, né? Eu fiquei com medo de te contar. Mas não se preocupa que só sabe a tia e eu e você, só nós três. Prometo que eu não conto pra mais ninguém, tá?
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
domingo, 6 de setembro de 2015
Desfechos
Antes de ser começo, era meio. Passamos direto pelo prefácio e começamos já naquele capítulo em que o conflito é definido. Talvez eu tenha pulado alguns parágrafos nessa parte e foi aí que me perdi na trama. Tentei voltar e ler com mais atenção. Tentei escrever capítulos novos. Inútil; teu enredo já era outro. A narrativa foi ficando confusa, arrastada, pesada. Era comédia, virou drama, e os diálogos todos se transformaram em monólogos tediosos. O último capítulo escrevi sozinha. O epílogo deixei para você. Chegamos enfim ao ponto final. Ou às reticências...
sábado, 5 de setembro de 2015
Dos escritos
Às vezes brinco de escrever e faço uma bagunça tão grande com as palavras que poesia vira carta que vira conto que vira ficção que vira biografia. Vou deixando assim pedacinhos meus por aí, trechinhos do que vivi ou do que quis viver, realidades de verdade imaginadas em vidas inventadas em tinta e papel ou caracteres, memorialista que sou das narrativas fantasiosas que crio. Eu passo, as frases ficam, eu volto, leitora com outros olhos de um repertório não tão vasto assim. E ao ler sigo escrevendo. Escrevo pra ler. Escrevo pra entender. Escrevo pra esquecer.
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
Carta do amor distante
Eu vou embora e nunca mais vou falar contigo, foi o que eu disse naquela última noite quando bati na tua porta toda molhada de chuva e choro. Embarquei resignadamente muda diante daquele novo tão sonhado que me chegava enfim às mãos. Dez horas e um oceano depois outra vida teve início. Outra, distante, da qual já não fazias parte. Passados já doze meses, me vejo às voltas com papéis e canetas para te escrever essas palavras. Te lembras quantas vezes imaginei uma janela com vista para o rio? Pois daqui se avista uma faixa, de um azul-esverdeado que por vezes se tinge de liliás e dourado, que parecia maior nos primeiros dias, mais larga. Mais largo era também o silêncio entre nós; você calado e eu a falar tanto sem nada dizer. Quanto tempo passamos assim? Longe, mesmo quando teu braço envolvia minha cintura nua e o encaixe dos nossos corpos tinha o som da tua respiração pesada no meu ouvido. O eléctrico é o meu despertador de todos os dias, e aqui fico a imaginar que jamais acordarias com o som dos motorneiros a subir e descer colinas. Seria sempre, como sempre, eu a te acordar, primeiro mãos, depois lábios, até te invadir o corpo todo, a te roubar o sossego de um resto preguiçoso de manhã nesse ritual que tantas vezes repeti. E quando enfim esse jogo terminasse te pegaria pelo braço para mostrar o calçamento das ruas e a poesia nas esquinas e o céu dos miradouros e as gentes e tudo e tanto que me encanta onde hoje chamo minha casa, minha cidade, lar. É o que eu sempre quis fazer, dividir tudo isso contigo, se bem te recordas de quantas vezes te disse. Já me acostumei a usar segunda pessoa do singular, tão singulares somos tu e eu, separados por continentes e pelo muro que erguestes e que eu sem sucesso tentei pular. Ao que me custa acostumar é à falta de gerúndio: cá ninguém está fazendo; todos estão a fazer. Estou a viver bem, a escrever pouco e a beber muito. Estou a sentir saudades de ti. Infinitivos, como que suspensos no tempo, permanentes. Estou a sentir saudades de ti e de tudo que não vivemos e de tudo não te disse. O rio corre, ancestral e mudo, testemunha solene de todos os segredos meus e das promessas quebradas. Como essa carta com palavras de nunca mais que tenho gana que leias. Adeus, te digo uma vez mais, jurando nunca mais falar contigo e a pensar que promessas, afinal, existem para serem quebradas.
domingo, 21 de junho de 2015
Onde e quando
Encontrei um lugar onde gosto de estar, hoje e ontem e amanhã e o tempo todo. A janela me dá o horário, eu fecho os olhos e faço de conta que o dia ainda não clareou. Trinta dias correm em doze horas e o tempo não se arrasta, por mais que eu queira. E eu quero doze horas, trinta dias, seis meses, sei-lá-quanto-tempo dura essa vontade de ficar, de não terminar nunca, de não me despedir. Só mais um pouquinho, deita aqui comigo eu digo, e você cede mais um assunto, mais um sorriso, mais um pouquinho, mais outras coisas. Esquece o mundo e fica aqui, é sério. A cabeça no seu peito, meus dedos entre os seus, o encaixe perfeito do seu corpo e do meu. Onde eu quero estar. Hoje, ontem, amanhã, todo dia um pouquinho e mais e mais e mais...
sábado, 6 de junho de 2015
Standin' on the corner
Ele te ama, o velho disse e as palavras ecoaram por horas dentro da minha cabeça junto à meia garrafa de Jack Daniels que eu já havia bebido. Que inferno dar atenção pra esse velho maldito que a gente cruzou na rua e que te pediu um cigarro. Eu gosto de trocar ideia com os mendigos, você disse, eu gosto também, você sabe, isso é quase que uma coisa nossa, sair por aí dando assunto pra quem pede cigarro ou dinheiro ou cachaça. Do outro lado da sala você afina um violão, é o que tem pra hoje na falta da guitarra, enquanto eu escuto uma discussão política sem pé nem cabeça entre o Deco e a Alana até perceber um rasgo na minha meia. Corro pro banheiro e lá dentro escuto os primeiros acordes. Sweet Jane, babaca, você sabe que é a minha música favorita. Volto pro meio da multidão de dez pessoas que tomam conta do sofá e do chão e eu sei que por baixo do ray ban é pra mim que você olha. O velho disse, ele te ama, enquanto a gente fazia o caminho do metrô até o apartamento da Catê. Tá na cara, ele disse, e aí você ficou na cozinha sei lá quanto tempo conversando com a menina que o Daniel trouxe e que ele tirou sei lá de onde, garota estranha. Acendi mais um cigarro, some people they like to go out dancing, dei mais uns dois goles no Jack. Y'know that women never really faint and that villains always blink their eyes, cantei junto, eu você e mais uns dois ou três. Sentei no parapeito, uma tragada atrás da outra enquanto observava a discussão sem fim do Deco e da Alana, o Daniel tentando disfarçar as pupilas dilatadas e as idas ao banheiro. a Bruna se pegando com o boy novo, a Catê fotografando, você conversando com a menina da cozinha depois que largou o violão de lado, show's over, era só pra tocar um Velvet de leve mesmo. Da janela eu assistia ao show que você fazia só pra mim, e a menina da cozinha nem sabia que era coadjuvante nesse espetáculo quase semanal. Entre um cigarro e um gole, ela sumiu, e quando dei por mim a Catê cochilava no sofá, a Bruna já tinha ido embora com o boy, e você já estava com a cabeça encostada no meu peito. Vesti seu casaco, encaixei meu corpo no teu abraço, paramos numa padaria pra comprar mais um maço e vimos o sol nascer na Roosevelt. Ele te ama, o velho disse.
domingo, 17 de maio de 2015
Uma Carta
Quantos milhares de anos somam
estes três meses? Estava tão segura quando você chegou, e por fim perdi tudo.
As convicções, as certezas, a segurança. Você. Me sobrou a ausência. Um vazio
fundo no qual me atiro. Você partiu, eu fiquei, com as noitadas e as garrafas
vazias, as elucubrações, os cigarros, vadiando e entregando-me a quem queira,
quando queira sem importância ou diferença. Eu, que não procurei nem desejei.
Eu que quis tanto.
Até que fundo fomos? Vadiamos à
toa, lemos uma coisa ou outra, andamos por aí sem rumo a ter pena de tudo e de
nós mesmos, divertimo-nos como crianças que queríamos ser, gozamos, e sabe do
que eu lembro? A memória que não me larga é daquela noite, a última noite
quando nos olhavam a se perguntarem por quê e quando eu mesma me perguntava a
mesma coisa. Jogamos, você comigo e eu com a sorte, a mistura de nicotina e
vinhos e copos quebrados e acordes e xingamentos. E mais tarde, quando de olhos
fechados você respirava nu ao meu lado eu mirava o teto a pensar se era aquilo
mesmo, o quão tênue pode ser a linha entre desejo e amor e a distração que
fazia da vida algo menos solitário.
Desmorono, fico aqui com os vícios
que eram seus e que se tornaram nossos. Deixando-me foi o que você me deixou.
As palavras, os hábitos, as manias e as rimas, todas suas. Seguro as lágrimas
que não posso e não quero e não vou jamais verter enquanto procuro uma maneira
de lidar com essa herança enquanto você trata de começar já outra por aí.
Tenho visto filmes e ido a bares e
discutido livros e tudo isso me entra à cabeça e quase me mata que não possa
mais falar com você sobre os dias arrastados. Ando pelas ruas de São Paulo a
procurar substitutos. É inútil. Procuro razões para isso e aquilo entre uma
passada e outra mas o inexplicável não se entende. Só me restou o avesso, só me
resta o avesso.
Quero ir embora e quero tanto que
você volte. Quero te extirpar, te expatriar de mim. Que mal fiz eu para me ver assim exilada, para te ter tão
longe quando te quero perto? Je t’aime, Antônio, je
t’aime. Como é mesmo que se diz eu te amo?
Texto livremente inspirado em uma das Novas Cartas Portuguesas.
Texto livremente inspirado em uma das Novas Cartas Portuguesas.
In the morning
Abriu os olhos e não conseguiu
enxergar muita coisa na penumbra do quarto. Sabia que já era noite, pois pelas
frestas da veneziana fechada entrava apenas a luz amarelada do vapor de sódio
das lâmpadas dos postes. Por quanto tempo teria dormido? Impossível saber, se
ele sequer lembrava das circunstâncias que o haviam levado de volta ao
apartamento.
Olhou para o lado e ela não estava
lá. Disso ele lembrava: havia voltado para casa com ela. Ou com a memória dela.
Acendeu a luminária ao lado da cama na esperança de encontrar qualquer
evidência da presença dela. Nada. Nem os brincos que ela sempre colocava
metodicamente sobre o criado-mudo nem o cheiro inconfundível que ela deixava
nos lençóis.
Levantou. Caminhou até a sala,
abriu a janela e deixou a noite entrar. Acendeu um cigarro e encheu os pulmões
de cidade e nicotina. Gostava dessa espécie de ritual matinal, fumar assistindo
o dia que termina e a noite que chega, pessoas voltando para casa dividindo a
calçada com aquelas que saem em busca de um prazer qualquer, fosse sexo, droga,
bebida ou amor. Eram entorpecentemente iguais para ele.
Tragou pela última vez o resto de
cigarro entre os dedos e procurou então pela casa qualquer outro vestígio que
indicasse que ela verdadeiramente havia estado ali. Nada além de copos e pratos
sujos na pia e um cinzeiro mais cheio que o habitual.
Tomou um banho, vestiu seu jeans e
camiseta. Ganhou a rua poucos minutos depois, com os óculos escuros de sempre.
Gostava da estranheza que causava em quem passava por ele.
Chegou ao mesmo bar onde começava
todos os seus dias. Cumprimentou todos que assim como ele noite após noite
estavam ali, quase como um filho que chega em casa e logo toma seu lugar à
mesa, algo que ele prontamente fez. Com o copo na mão, dividiu sua atenção
entre as notícias mudas do jornal na TV e a porta por onde ele sabia que ela
podia chegar a qualquer momento.
Bebeu uma, duas, cinco doses
enquanto olhava para a entrada por onde ela insistia em não chegar. Mais doses,
colegas de mesa e de copo chegaram e foram embora e ele continuava ali no seu
lugar, e assistir à rua já era mais interessante que o silêncio da televisão.
Desistiu de esperar por ela ali.
Resignado, saiu cambaleando a procura dela. Foi a todos os bares e a todos os
lugares onde sabia que ela poderia estar. Ela não chegou a nenhum deles.
Fez seu caminho de volta pra casa
entre as pessoas que já saíam para mais um dia de trabalho. Os óculos escuros
já não causavam tanta estranheza.
Ficou surpreso ao vê-la dormindo
sentada na entrada do seu prédio. Perguntou há quanto tempo ela havia chegado,
resposta que ela não foi capaz de dar. Sonolenta e sem sair do lugar aninhou-se
a ele como um gato de rua. Ele levou o bichano para casa.
Sentou-se e acompanhou todo o
ritual dela: tirar os sapatos, abrir a garrafa de whisky, cantarolar trechos
cheios de erros da Nina Simone, dar um gole na garrafa antes de servir uma no
copo sem gelo para sorver de uma vez só, sentar ao lado dele, recostar a cabeça
no sofá e cantarolar Billie Holiday e dizer que não deveria estar ali e que
sempre acabava ali e rir enquanto olhava pra ele. Essa era a senha.
Começou então seu próprio ritual,
com uma das mãos nos cabelos dela e a outra tentando alcançar os quadris, a
boca apenas respirando no ouvido dela enquanto ela ensaiava uma pretensa fuga
que nunca acontecia. Era assim todas as vezes que se encontravam ao acaso ou
não. Era assim havia quase um ano, e cada uma das vezes ele quis traga-la por
inteiro. Queria os pulmões cheios dela, a mente inebriada por ela, até as
entranhas estupidamente perdido por ela.
Abriu os olhos e na penumbra do
quarto não conseguiu enxergar muita coisa. Impossível saber por quanto tempo
havia dormido. Olhou para o lado e ela não estava lá.
Kind of Blue
Tiro da estante o meu disco favorito, Kind of Blue, do Miles Davis. A agulha passeia pelo vinil, e os
primeiros acordes de So What invadem
a sala.
Você se lembra, Cora, da primeira vez que veio em casa? Eu
falei que gostava do Davis, você disse que preferia Coltrane e que A Love Supreme era seu disco favorito.
Rebati dizendo que aquele mantra no final da primeira faixa me irritava, e você
argumentou que era justamente aquilo que te fazia gostar tanto do álbum: a love
supreme, a love supreme, a love supreme... Aquele mantra te fazia perder a
noção de tempo e espaço. Em seguida quem te fez perder a noção de tempo e
espaço fui eu.
O melhor Martini que eu já tomei é o seu, Cora. Nenhum outro
chega perto. Mexido, não batido, como James Bond. Sempre rimos dessa piada a
cada drinque despejado na taça. Um, depois outro, e mais outro, até eu pedir um
mojito ou um daiquiri. Você não é o Hemingway. Ah! Você sempre me lembrando que
eu nunca vou escrever como o Papa.
Vou trocar o disco, vou colocar Birth of the Cool pra rolar. Você que me deu, Cora. Achou numa loja
de discos usados em Nova York, era da primeira tiragem. Trouxe com todo cuidado
pra não quebrar na mala. Sabia que era especial. Não, vamos ouvir esse mesmo.
Hoje não estou pra Thelonious Monk e a gente sempre se entende ao som do Miles.
Não, nós não somos íntimos, mas que diferença faz dizer Miles ou Miles Davis?
Você entendeu, não entendeu? Mas que droga, Cora, você sempre tão detalhista!
Aquele show que vimos dele no Carlyle em 87 foi muito bom,
hein? Lembra? Você disse que aquela noite, só naquela noite, preferiu o Miles
ao Coltrane. Andamos até o hotel, rindo, como dois adolescentes. Os martinis do
Carlyle não eram tão bons quanto o seu, mas bebemos vários mesmo assim.
Perdemos a noção de tempo e espaço num beco qualquer, você lembra? Você estava
de vestido apesar do frio, mas o álcool esquentou nossos corpos e nossas
mentes, e dois meses depois estávamos diante de um médico perguntando como
resolver o problema daquele filho que a gente não queria ter. Me arrependo
disso até hoje. O pequeno Miles já teria seis anos. Miles? Meu filho nunca se
chamaria Miles! John, talvez. Realmente, não era pra ser.
Você organizou meus discos em ordem alfabética. Eu sempre te
disse pra não mexer nos meus discos, Cora. Que neurose com esses discos! Os
discos são uma parte da minha vida; pra saber onde está Birth of the Cool eu preciso saber que foi você quem trouxe pra mim
de uma viagem a Nova York em 86. Agora eu só preciso saber que o B vem depois
do A, que graça tem? Que diferença faz? Eu não aguento mais sua paranoia com
esses discos, sempre esses discos, meus discos, meus discos! Meus discos!
Meu Martini não chega nem perto do seu, Cora. Reorganizar os
discos está levando mais tempo do que eu imaginava. As pilhas vão se amontoando
pelos cantos, mesmo aquelas capas vazias dos vinis que você quebrou. As minhas
emulações de Hemingway já não saem mais da velha máquina de escrever. Foi você
quem deu, lembra? A máquina, o disco, o Martini, as capas vazias, o cheiro que
insiste em não sair dos travesseiros.
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