domingo, 17 de maio de 2015

Uma Carta

Quantos milhares de anos somam estes três meses? Estava tão segura quando você chegou, e por fim perdi tudo. As convicções, as certezas, a segurança. Você. Me sobrou a ausência. Um vazio fundo no qual me atiro. Você partiu, eu fiquei, com as noitadas e as garrafas vazias, as elucubrações, os cigarros, vadiando e entregando-me a quem queira, quando queira sem importância ou diferença. Eu, que não procurei nem desejei. Eu que quis tanto.

Até que fundo fomos? Vadiamos à toa, lemos uma coisa ou outra, andamos por aí sem rumo a ter pena de tudo e de nós mesmos, divertimo-nos como crianças que queríamos ser, gozamos, e sabe do que eu lembro? A memória que não me larga é daquela noite, a última noite quando nos olhavam a se perguntarem por quê e quando eu mesma me perguntava a mesma coisa. Jogamos, você comigo e eu com a sorte, a mistura de nicotina e vinhos e copos quebrados e acordes e xingamentos. E mais tarde, quando de olhos fechados você respirava nu ao meu lado eu mirava o teto a pensar se era aquilo mesmo, o quão tênue pode ser a linha entre desejo e amor e a distração que fazia da vida algo menos solitário.

Desmorono, fico aqui com os vícios que eram seus e que se tornaram nossos. Deixando-me foi o que você me deixou. As palavras, os hábitos, as manias e as rimas, todas suas. Seguro as lágrimas que não posso e não quero e não vou jamais verter enquanto procuro uma maneira de lidar com essa herança enquanto você trata de começar já outra por aí.

Tenho visto filmes e ido a bares e discutido livros e tudo isso me entra à cabeça e quase me mata que não possa mais falar com você sobre os dias arrastados. Ando pelas ruas de São Paulo a procurar substitutos. É inútil. Procuro razões para isso e aquilo entre uma passada e outra mas o inexplicável não se entende. Só me restou o avesso, só me resta o avesso.

Quero ir embora e quero tanto que você volte. Quero te extirpar, te expatriar de mim. Que mal fiz eu para me ver assim exilada, para te ter tão longe quando te quero perto? Je t’aime, Antônio, je t’aime. Como é mesmo que se diz eu te amo?



Texto livremente inspirado em uma das Novas Cartas Portuguesas.

In the morning

Abriu os olhos e não conseguiu enxergar muita coisa na penumbra do quarto. Sabia que já era noite, pois pelas frestas da veneziana fechada entrava apenas a luz amarelada do vapor de sódio das lâmpadas dos postes. Por quanto tempo teria dormido? Impossível saber, se ele sequer lembrava das circunstâncias que o haviam levado de volta ao apartamento.

Olhou para o lado e ela não estava lá. Disso ele lembrava: havia voltado para casa com ela. Ou com a memória dela. Acendeu a luminária ao lado da cama na esperança de encontrar qualquer evidência da presença dela. Nada. Nem os brincos que ela sempre colocava metodicamente sobre o criado-mudo nem o cheiro inconfundível que ela deixava nos lençóis.

Levantou. Caminhou até a sala, abriu a janela e deixou a noite entrar. Acendeu um cigarro e encheu os pulmões de cidade e nicotina. Gostava dessa espécie de ritual matinal, fumar assistindo o dia que termina e a noite que chega, pessoas voltando para casa dividindo a calçada com aquelas que saem em busca de um prazer qualquer, fosse sexo, droga, bebida ou amor. Eram entorpecentemente iguais para ele.

Tragou pela última vez o resto de cigarro entre os dedos e procurou então pela casa qualquer outro vestígio que indicasse que ela verdadeiramente havia estado ali. Nada além de copos e pratos sujos na pia e um cinzeiro mais cheio que o habitual.

Tomou um banho, vestiu seu jeans e camiseta. Ganhou a rua poucos minutos depois, com os óculos escuros de sempre. Gostava da estranheza que causava em quem passava por ele.

Chegou ao mesmo bar onde começava todos os seus dias. Cumprimentou todos que assim como ele noite após noite estavam ali, quase como um filho que chega em casa e logo toma seu lugar à mesa, algo que ele prontamente fez. Com o copo na mão, dividiu sua atenção entre as notícias mudas do jornal na TV e a porta por onde ele sabia que ela podia chegar a qualquer momento.

Bebeu uma, duas, cinco doses enquanto olhava para a entrada por onde ela insistia em não chegar. Mais doses, colegas de mesa e de copo chegaram e foram embora e ele continuava ali no seu lugar, e assistir à rua já era mais interessante que o silêncio da televisão.

Desistiu de esperar por ela ali. Resignado, saiu cambaleando a procura dela. Foi a todos os bares e a todos os lugares onde sabia que ela poderia estar. Ela não chegou a nenhum deles.

Fez seu caminho de volta pra casa entre as pessoas que já saíam para mais um dia de trabalho. Os óculos escuros já não causavam tanta estranheza.

Ficou surpreso ao vê-la dormindo sentada na entrada do seu prédio. Perguntou há quanto tempo ela havia chegado, resposta que ela não foi capaz de dar. Sonolenta e sem sair do lugar aninhou-se a ele como um gato de rua. Ele levou o bichano para casa.

Sentou-se e acompanhou todo o ritual dela: tirar os sapatos, abrir a garrafa de whisky, cantarolar trechos cheios de erros da Nina Simone, dar um gole na garrafa antes de servir uma no copo sem gelo para sorver de uma vez só, sentar ao lado dele, recostar a cabeça no sofá e cantarolar Billie Holiday e dizer que não deveria estar ali e que sempre acabava ali e rir enquanto olhava pra ele. Essa era a senha.

Começou então seu próprio ritual, com uma das mãos nos cabelos dela e a outra tentando alcançar os quadris, a boca apenas respirando no ouvido dela enquanto ela ensaiava uma pretensa fuga que nunca acontecia. Era assim todas as vezes que se encontravam ao acaso ou não. Era assim havia quase um ano, e cada uma das vezes ele quis traga-la por inteiro. Queria os pulmões cheios dela, a mente inebriada por ela, até as entranhas estupidamente perdido por ela.

Abriu os olhos e na penumbra do quarto não conseguiu enxergar muita coisa. Impossível saber por quanto tempo havia dormido. Olhou para o lado e ela não estava lá.

Kind of Blue

Tiro da estante o meu disco favorito, Kind of Blue, do Miles Davis. A agulha passeia pelo vinil, e os primeiros acordes de So What invadem a sala.

Você se lembra, Cora, da primeira vez que veio em casa? Eu falei que gostava do Davis, você disse que preferia Coltrane e que A Love Supreme era seu disco favorito. Rebati dizendo que aquele mantra no final da primeira faixa me irritava, e você argumentou que era justamente aquilo que te fazia gostar tanto do álbum: a love supreme, a love supreme, a love supreme... Aquele mantra te fazia perder a noção de tempo e espaço. Em seguida quem te fez perder a noção de tempo e espaço fui eu.

O melhor Martini que eu já tomei é o seu, Cora. Nenhum outro chega perto. Mexido, não batido, como James Bond. Sempre rimos dessa piada a cada drinque despejado na taça. Um, depois outro, e mais outro, até eu pedir um mojito ou um daiquiri. Você não é o Hemingway. Ah! Você sempre me lembrando que eu nunca vou escrever como o Papa.

Vou trocar o disco, vou colocar Birth of the Cool pra rolar. Você que me deu, Cora. Achou numa loja de discos usados em Nova York, era da primeira tiragem. Trouxe com todo cuidado pra não quebrar na mala. Sabia que era especial. Não, vamos ouvir esse mesmo. Hoje não estou pra Thelonious Monk e a gente sempre se entende ao som do Miles. Não, nós não somos íntimos, mas que diferença faz dizer Miles ou Miles Davis? Você entendeu, não entendeu? Mas que droga, Cora, você sempre tão detalhista!

Aquele show que vimos dele no Carlyle em 87 foi muito bom, hein? Lembra? Você disse que aquela noite, só naquela noite, preferiu o Miles ao Coltrane. Andamos até o hotel, rindo, como dois adolescentes. Os martinis do Carlyle não eram tão bons quanto o seu, mas bebemos vários mesmo assim. Perdemos a noção de tempo e espaço num beco qualquer, você lembra? Você estava de vestido apesar do frio, mas o álcool esquentou nossos corpos e nossas mentes, e dois meses depois estávamos diante de um médico perguntando como resolver o problema daquele filho que a gente não queria ter. Me arrependo disso até hoje. O pequeno Miles já teria seis anos. Miles? Meu filho nunca se chamaria Miles! John, talvez. Realmente, não era pra ser.

Você organizou meus discos em ordem alfabética. Eu sempre te disse pra não mexer nos meus discos, Cora. Que neurose com esses discos! Os discos são uma parte da minha vida; pra saber onde está Birth of the Cool eu preciso saber que foi você quem trouxe pra mim de uma viagem a Nova York em 86. Agora eu só preciso saber que o B vem depois do A, que graça tem? Que diferença faz? Eu não aguento mais sua paranoia com esses discos, sempre esses discos, meus discos, meus discos! Meus discos!

Meu Martini não chega nem perto do seu, Cora. Reorganizar os discos está levando mais tempo do que eu imaginava. As pilhas vão se amontoando pelos cantos, mesmo aquelas capas vazias dos vinis que você quebrou. As minhas emulações de Hemingway já não saem mais da velha máquina de escrever. Foi você quem deu, lembra? A máquina, o disco, o Martini, as capas vazias, o cheiro que insiste em não sair dos travesseiros.

Os últimos acordes de Flamenco Sketches invadem a sala. Deixo a música acabar. Fico escutando a agulha arranhando o silêncio. Com um copo vazio na mão, me deixo hipnotizar pelo barulho do disco quando chega ao fim. Já nem sei mais se o som está dentro ou fora de mim. Basta desligar a radiola. Está fora. Ela, ao contrário. Deixo o silêncio inundar o apartamento. Fico a sós com Cora e com as lembranças de tudo que eu teria realmente dito. Que importa? Vou ouvir Coltrane.