quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Jardim de Infância

A gente não fica assim um muito pertinho do outro, só de vez em quando e eu fico feliz quando você me chama pra brincar. Teve um dia que a gente dividiu o lanche e foi muito legal, você comeu o seu e o restinho do meu que eu não dei conta de comer mas foi dessa vez só, e na minha lancheira sempre tem lanche gostoso, eu até já levei pra você e você disse que meu lanche era o lanche mais gostoso. Sempre tem um monte de meninos com você e umas meninas também, eu não gosto mas eu faço de conta que nem ligo e só conto pras minhas amigas que não gosto porque pras amigas a gente pode contar tudo, né? Foi muito legal aquele dia que que a gente fez uma festa do pijama. Tava muito frio e a gente ficou acordado até bem tardão e a gente falou um monte de coisa e cantou e brincou bastante. Aí eu queria que sempre tivesse festa do pijama ou alguma festa diferente pra gente ficar brincando até muito tarde de novo, mas não tem todo dia porque não dá. Eu fiz uma cartinha com um desenho pra você que eu ia esconder na sua mochila mas eu fiquei com vergonha e guardei na minha mesmo. Já te chamei um montão de vezes pra desenhar comigo mas você sempre tem outra coisa que você quer fazer, ainda bem que eu nem ligo de ficar desenhando sozinha, eu gosto muito de desenhar sozinha. Você nem sabe, mas a tia me contou que a gente vai ser noivinho na festa junina e todo mundo vai seguir a gente na hora de dançar quadrilha. Eu contei pra ela que a gente é namorado mas eu disse que você não sabe que a gente é namorado. Você não sabe, né? Eu fiquei com medo de te contar. Mas não se preocupa que só sabe a tia e eu e você, só nós três. Prometo que eu não conto pra mais ninguém, tá?

domingo, 6 de setembro de 2015

Desfechos

Antes de ser começo, era meio. Passamos direto pelo prefácio e começamos já naquele capítulo em que o conflito é definido. Talvez eu tenha pulado alguns parágrafos nessa parte e foi aí que me perdi na trama. Tentei voltar e ler com mais atenção. Tentei escrever capítulos novos. Inútil; teu enredo já era outro. A narrativa foi ficando confusa, arrastada, pesada. Era comédia, virou drama, e os diálogos todos se transformaram em monólogos tediosos. O último capítulo escrevi sozinha. O epílogo deixei para você. Chegamos enfim ao ponto final. Ou às reticências...

sábado, 5 de setembro de 2015

Dos escritos

Às vezes brinco de escrever e faço uma bagunça tão grande com as palavras que poesia vira carta que vira conto que vira ficção que vira biografia. Vou deixando assim pedacinhos meus por aí, trechinhos do que vivi ou do que quis viver, realidades de verdade imaginadas em vidas inventadas em tinta e papel ou caracteres, memorialista que sou das narrativas fantasiosas que crio. Eu passo, as frases ficam, eu volto, leitora com outros olhos de um repertório não tão vasto assim. E ao ler sigo escrevendo. Escrevo pra ler. Escrevo pra entender. Escrevo pra esquecer.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Carta do amor distante

Eu vou embora e nunca mais vou falar contigo, foi o que eu disse naquela última noite quando bati na tua porta toda molhada de chuva e choro. Embarquei resignadamente muda diante daquele novo tão sonhado que me chegava enfim às mãos. Dez horas e um oceano depois outra vida teve início. Outra, distante, da qual já não fazias parte. Passados já doze meses, me vejo às voltas com papéis e canetas para te escrever essas palavras. Te lembras quantas vezes imaginei uma janela com vista para o rio? Pois daqui se avista uma faixa, de um azul-esverdeado que por vezes se tinge de liliás e dourado, que parecia maior nos primeiros dias, mais larga. Mais largo era também o silêncio entre nós; você calado e eu a falar tanto sem nada dizer. Quanto tempo passamos assim? Longe, mesmo quando teu braço envolvia minha cintura nua e o encaixe dos nossos corpos tinha o som da tua respiração pesada no meu ouvido. O eléctrico é o meu despertador de todos os dias, e aqui fico a imaginar que jamais acordarias com o som dos motorneiros a subir e descer colinas. Seria sempre, como sempre, eu a te acordar, primeiro mãos, depois lábios, até te invadir o corpo todo, a te roubar o sossego de um resto preguiçoso de manhã nesse ritual que tantas vezes repeti. E quando enfim esse jogo terminasse te pegaria pelo braço para mostrar o calçamento das ruas e a poesia nas esquinas e o céu dos miradouros e as gentes e tudo e tanto que me encanta onde hoje chamo minha casa, minha cidade, lar. É o que eu sempre quis fazer, dividir tudo isso contigo, se bem te recordas de quantas vezes te disse. Já me acostumei a usar segunda pessoa do singular, tão singulares somos tu e eu, separados por continentes e pelo muro que erguestes e que eu sem sucesso tentei pular. Ao que me custa acostumar é à falta de gerúndio: cá ninguém está fazendo; todos estão a fazer. Estou a viver bem, a escrever pouco e a beber muito. Estou a sentir saudades de ti. Infinitivos, como que suspensos no tempo, permanentes. Estou a sentir saudades de ti e de tudo que não vivemos e de tudo não te disse. O rio corre, ancestral e mudo, testemunha solene de todos os segredos meus e das promessas quebradas. Como essa carta com palavras de nunca mais que tenho gana que leias. Adeus, te digo uma vez mais, jurando nunca mais falar contigo e a pensar que promessas, afinal, existem para serem quebradas.