Abriu os olhos e não conseguiu
enxergar muita coisa na penumbra do quarto. Sabia que já era noite, pois pelas
frestas da veneziana fechada entrava apenas a luz amarelada do vapor de sódio
das lâmpadas dos postes. Por quanto tempo teria dormido? Impossível saber, se
ele sequer lembrava das circunstâncias que o haviam levado de volta ao
apartamento.
Olhou para o lado e ela não estava
lá. Disso ele lembrava: havia voltado para casa com ela. Ou com a memória dela.
Acendeu a luminária ao lado da cama na esperança de encontrar qualquer
evidência da presença dela. Nada. Nem os brincos que ela sempre colocava
metodicamente sobre o criado-mudo nem o cheiro inconfundível que ela deixava
nos lençóis.
Levantou. Caminhou até a sala,
abriu a janela e deixou a noite entrar. Acendeu um cigarro e encheu os pulmões
de cidade e nicotina. Gostava dessa espécie de ritual matinal, fumar assistindo
o dia que termina e a noite que chega, pessoas voltando para casa dividindo a
calçada com aquelas que saem em busca de um prazer qualquer, fosse sexo, droga,
bebida ou amor. Eram entorpecentemente iguais para ele.
Tragou pela última vez o resto de
cigarro entre os dedos e procurou então pela casa qualquer outro vestígio que
indicasse que ela verdadeiramente havia estado ali. Nada além de copos e pratos
sujos na pia e um cinzeiro mais cheio que o habitual.
Tomou um banho, vestiu seu jeans e
camiseta. Ganhou a rua poucos minutos depois, com os óculos escuros de sempre.
Gostava da estranheza que causava em quem passava por ele.
Chegou ao mesmo bar onde começava
todos os seus dias. Cumprimentou todos que assim como ele noite após noite
estavam ali, quase como um filho que chega em casa e logo toma seu lugar à
mesa, algo que ele prontamente fez. Com o copo na mão, dividiu sua atenção
entre as notícias mudas do jornal na TV e a porta por onde ele sabia que ela
podia chegar a qualquer momento.
Bebeu uma, duas, cinco doses
enquanto olhava para a entrada por onde ela insistia em não chegar. Mais doses,
colegas de mesa e de copo chegaram e foram embora e ele continuava ali no seu
lugar, e assistir à rua já era mais interessante que o silêncio da televisão.
Desistiu de esperar por ela ali.
Resignado, saiu cambaleando a procura dela. Foi a todos os bares e a todos os
lugares onde sabia que ela poderia estar. Ela não chegou a nenhum deles.
Fez seu caminho de volta pra casa
entre as pessoas que já saíam para mais um dia de trabalho. Os óculos escuros
já não causavam tanta estranheza.
Ficou surpreso ao vê-la dormindo
sentada na entrada do seu prédio. Perguntou há quanto tempo ela havia chegado,
resposta que ela não foi capaz de dar. Sonolenta e sem sair do lugar aninhou-se
a ele como um gato de rua. Ele levou o bichano para casa.
Sentou-se e acompanhou todo o
ritual dela: tirar os sapatos, abrir a garrafa de whisky, cantarolar trechos
cheios de erros da Nina Simone, dar um gole na garrafa antes de servir uma no
copo sem gelo para sorver de uma vez só, sentar ao lado dele, recostar a cabeça
no sofá e cantarolar Billie Holiday e dizer que não deveria estar ali e que
sempre acabava ali e rir enquanto olhava pra ele. Essa era a senha.
Começou então seu próprio ritual,
com uma das mãos nos cabelos dela e a outra tentando alcançar os quadris, a
boca apenas respirando no ouvido dela enquanto ela ensaiava uma pretensa fuga
que nunca acontecia. Era assim todas as vezes que se encontravam ao acaso ou
não. Era assim havia quase um ano, e cada uma das vezes ele quis traga-la por
inteiro. Queria os pulmões cheios dela, a mente inebriada por ela, até as
entranhas estupidamente perdido por ela.
Abriu os olhos e na penumbra do
quarto não conseguiu enxergar muita coisa. Impossível saber por quanto tempo
havia dormido. Olhou para o lado e ela não estava lá.
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