sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Carta do amor distante

Eu vou embora e nunca mais vou falar contigo, foi o que eu disse naquela última noite quando bati na tua porta toda molhada de chuva e choro. Embarquei resignadamente muda diante daquele novo tão sonhado que me chegava enfim às mãos. Dez horas e um oceano depois outra vida teve início. Outra, distante, da qual já não fazias parte. Passados já doze meses, me vejo às voltas com papéis e canetas para te escrever essas palavras. Te lembras quantas vezes imaginei uma janela com vista para o rio? Pois daqui se avista uma faixa, de um azul-esverdeado que por vezes se tinge de liliás e dourado, que parecia maior nos primeiros dias, mais larga. Mais largo era também o silêncio entre nós; você calado e eu a falar tanto sem nada dizer. Quanto tempo passamos assim? Longe, mesmo quando teu braço envolvia minha cintura nua e o encaixe dos nossos corpos tinha o som da tua respiração pesada no meu ouvido. O eléctrico é o meu despertador de todos os dias, e aqui fico a imaginar que jamais acordarias com o som dos motorneiros a subir e descer colinas. Seria sempre, como sempre, eu a te acordar, primeiro mãos, depois lábios, até te invadir o corpo todo, a te roubar o sossego de um resto preguiçoso de manhã nesse ritual que tantas vezes repeti. E quando enfim esse jogo terminasse te pegaria pelo braço para mostrar o calçamento das ruas e a poesia nas esquinas e o céu dos miradouros e as gentes e tudo e tanto que me encanta onde hoje chamo minha casa, minha cidade, lar. É o que eu sempre quis fazer, dividir tudo isso contigo, se bem te recordas de quantas vezes te disse. Já me acostumei a usar segunda pessoa do singular, tão singulares somos tu e eu, separados por continentes e pelo muro que erguestes e que eu sem sucesso tentei pular. Ao que me custa acostumar é à falta de gerúndio: cá ninguém está fazendo; todos estão a fazer. Estou a viver bem, a escrever pouco e a beber muito. Estou a sentir saudades de ti. Infinitivos, como que suspensos no tempo, permanentes. Estou a sentir saudades de ti e de tudo que não vivemos e de tudo não te disse. O rio corre, ancestral e mudo, testemunha solene de todos os segredos meus e das promessas quebradas. Como essa carta com palavras de nunca mais que tenho gana que leias. Adeus, te digo uma vez mais, jurando nunca mais falar contigo e a pensar que promessas, afinal, existem para serem quebradas.

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