Tiro da estante o meu disco favorito, Kind of Blue, do Miles Davis. A agulha passeia pelo vinil, e os
primeiros acordes de So What invadem
a sala.
Você se lembra, Cora, da primeira vez que veio em casa? Eu
falei que gostava do Davis, você disse que preferia Coltrane e que A Love Supreme era seu disco favorito.
Rebati dizendo que aquele mantra no final da primeira faixa me irritava, e você
argumentou que era justamente aquilo que te fazia gostar tanto do álbum: a love
supreme, a love supreme, a love supreme... Aquele mantra te fazia perder a
noção de tempo e espaço. Em seguida quem te fez perder a noção de tempo e
espaço fui eu.
O melhor Martini que eu já tomei é o seu, Cora. Nenhum outro
chega perto. Mexido, não batido, como James Bond. Sempre rimos dessa piada a
cada drinque despejado na taça. Um, depois outro, e mais outro, até eu pedir um
mojito ou um daiquiri. Você não é o Hemingway. Ah! Você sempre me lembrando que
eu nunca vou escrever como o Papa.
Vou trocar o disco, vou colocar Birth of the Cool pra rolar. Você que me deu, Cora. Achou numa loja
de discos usados em Nova York, era da primeira tiragem. Trouxe com todo cuidado
pra não quebrar na mala. Sabia que era especial. Não, vamos ouvir esse mesmo.
Hoje não estou pra Thelonious Monk e a gente sempre se entende ao som do Miles.
Não, nós não somos íntimos, mas que diferença faz dizer Miles ou Miles Davis?
Você entendeu, não entendeu? Mas que droga, Cora, você sempre tão detalhista!
Aquele show que vimos dele no Carlyle em 87 foi muito bom,
hein? Lembra? Você disse que aquela noite, só naquela noite, preferiu o Miles
ao Coltrane. Andamos até o hotel, rindo, como dois adolescentes. Os martinis do
Carlyle não eram tão bons quanto o seu, mas bebemos vários mesmo assim.
Perdemos a noção de tempo e espaço num beco qualquer, você lembra? Você estava
de vestido apesar do frio, mas o álcool esquentou nossos corpos e nossas
mentes, e dois meses depois estávamos diante de um médico perguntando como
resolver o problema daquele filho que a gente não queria ter. Me arrependo
disso até hoje. O pequeno Miles já teria seis anos. Miles? Meu filho nunca se
chamaria Miles! John, talvez. Realmente, não era pra ser.
Você organizou meus discos em ordem alfabética. Eu sempre te
disse pra não mexer nos meus discos, Cora. Que neurose com esses discos! Os
discos são uma parte da minha vida; pra saber onde está Birth of the Cool eu preciso saber que foi você quem trouxe pra mim
de uma viagem a Nova York em 86. Agora eu só preciso saber que o B vem depois
do A, que graça tem? Que diferença faz? Eu não aguento mais sua paranoia com
esses discos, sempre esses discos, meus discos, meus discos! Meus discos!
Meu Martini não chega nem perto do seu, Cora. Reorganizar os
discos está levando mais tempo do que eu imaginava. As pilhas vão se amontoando
pelos cantos, mesmo aquelas capas vazias dos vinis que você quebrou. As minhas
emulações de Hemingway já não saem mais da velha máquina de escrever. Foi você
quem deu, lembra? A máquina, o disco, o Martini, as capas vazias, o cheiro que
insiste em não sair dos travesseiros.
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