domingo, 17 de maio de 2015

Kind of Blue

Tiro da estante o meu disco favorito, Kind of Blue, do Miles Davis. A agulha passeia pelo vinil, e os primeiros acordes de So What invadem a sala.

Você se lembra, Cora, da primeira vez que veio em casa? Eu falei que gostava do Davis, você disse que preferia Coltrane e que A Love Supreme era seu disco favorito. Rebati dizendo que aquele mantra no final da primeira faixa me irritava, e você argumentou que era justamente aquilo que te fazia gostar tanto do álbum: a love supreme, a love supreme, a love supreme... Aquele mantra te fazia perder a noção de tempo e espaço. Em seguida quem te fez perder a noção de tempo e espaço fui eu.

O melhor Martini que eu já tomei é o seu, Cora. Nenhum outro chega perto. Mexido, não batido, como James Bond. Sempre rimos dessa piada a cada drinque despejado na taça. Um, depois outro, e mais outro, até eu pedir um mojito ou um daiquiri. Você não é o Hemingway. Ah! Você sempre me lembrando que eu nunca vou escrever como o Papa.

Vou trocar o disco, vou colocar Birth of the Cool pra rolar. Você que me deu, Cora. Achou numa loja de discos usados em Nova York, era da primeira tiragem. Trouxe com todo cuidado pra não quebrar na mala. Sabia que era especial. Não, vamos ouvir esse mesmo. Hoje não estou pra Thelonious Monk e a gente sempre se entende ao som do Miles. Não, nós não somos íntimos, mas que diferença faz dizer Miles ou Miles Davis? Você entendeu, não entendeu? Mas que droga, Cora, você sempre tão detalhista!

Aquele show que vimos dele no Carlyle em 87 foi muito bom, hein? Lembra? Você disse que aquela noite, só naquela noite, preferiu o Miles ao Coltrane. Andamos até o hotel, rindo, como dois adolescentes. Os martinis do Carlyle não eram tão bons quanto o seu, mas bebemos vários mesmo assim. Perdemos a noção de tempo e espaço num beco qualquer, você lembra? Você estava de vestido apesar do frio, mas o álcool esquentou nossos corpos e nossas mentes, e dois meses depois estávamos diante de um médico perguntando como resolver o problema daquele filho que a gente não queria ter. Me arrependo disso até hoje. O pequeno Miles já teria seis anos. Miles? Meu filho nunca se chamaria Miles! John, talvez. Realmente, não era pra ser.

Você organizou meus discos em ordem alfabética. Eu sempre te disse pra não mexer nos meus discos, Cora. Que neurose com esses discos! Os discos são uma parte da minha vida; pra saber onde está Birth of the Cool eu preciso saber que foi você quem trouxe pra mim de uma viagem a Nova York em 86. Agora eu só preciso saber que o B vem depois do A, que graça tem? Que diferença faz? Eu não aguento mais sua paranoia com esses discos, sempre esses discos, meus discos, meus discos! Meus discos!

Meu Martini não chega nem perto do seu, Cora. Reorganizar os discos está levando mais tempo do que eu imaginava. As pilhas vão se amontoando pelos cantos, mesmo aquelas capas vazias dos vinis que você quebrou. As minhas emulações de Hemingway já não saem mais da velha máquina de escrever. Foi você quem deu, lembra? A máquina, o disco, o Martini, as capas vazias, o cheiro que insiste em não sair dos travesseiros.

Os últimos acordes de Flamenco Sketches invadem a sala. Deixo a música acabar. Fico escutando a agulha arranhando o silêncio. Com um copo vazio na mão, me deixo hipnotizar pelo barulho do disco quando chega ao fim. Já nem sei mais se o som está dentro ou fora de mim. Basta desligar a radiola. Está fora. Ela, ao contrário. Deixo o silêncio inundar o apartamento. Fico a sós com Cora e com as lembranças de tudo que eu teria realmente dito. Que importa? Vou ouvir Coltrane.

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